Um monstro talvez

Tenho andado tão diferente, desapegada as coisas sentimentais. Eu sempre quis arrumar um namorado, com o qual eu gostaria de estar para sempre, pra conversar, jogar vídeo game, ir ao cinema, passear no parque, sair pra jantar. Engraçado, porque nada disso me importa agora, nada disso me interessa ou atrai. Eu quero alguém pra beijar e sumir, eu quero tudo provisório, nada que me prenda, nada que seja fixo. Talvez por ter passado tanto tempo presa no meu mundo privado e distante de tudo, agora eu seja um monstro que quer engolir alem do que aguenta, possuir tudo. Talvez eu seja mesmo um monstro, que não sabe a hora de parar nem a hora de começar. Talvez eu esteja faminta e precise sair por ai engolindo sem mastigar, sem saborear, vomitando e querendo mais do que não é bom e mata. É, talvez eu seja o ser mais descontrolado do mundo, talvez eu tenha nascido para ficar presa, eu não sei andar na rua sem coleira, eu sou um animal. Quem foi que me soltou? Não percebe o bem maléfico que me faz viver nesse mundo que não é pra mim? Eu não quero voltar pro meu mundo privado, ele é fabuloso mas eu já o conheço de ponta a ponta. Quero engolir mais um pouco desse mundo diferente, quero perder mais um bocado da minha lucidez, posso ficar mais um pouco e desvendar os seus mistérios, mas eu sei que um dia precisarei voltar. E pensar que há segundos eu era a mais equilibrada, a pessoa certa, incapaz de errar. Afinal, o que eu sou? Onde está o meu controle? Já procurei em baixo do tapete ou nas bordas do sofá mas eu não encontro! Quem foi o engraçadinho que o escondeu? Eu sei que estou cega a ponto de não enxergar um palmo a minha frente, mas minha boca não está ocupada, o que significa que eu posso comer mais das iguarias podres e tão diferentes que esse mundo me oferece. Por favor, coloquem uma fita isolante na minha boca, se não isso nunca vai acabar.

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